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empreendedorismo × motivação × Tutus na Rede
Criar uma empresa requer um esforço descomunal: é documentação para abrir, o tempo gasto para escolha do local e recrutamento dos funcionários, o orçamento, o suor para se gerar receita, etc. São tarefas e responsabilidades diárias que consomem o empreendedor todos os dias. Dotado da consciência e do prazer de estar tocando o barco, segue firme e motivado no sucesso da empresa. Segue firme acreditando até nas horas mais ruins que a eminência de um fracasso não passaria de uma mera fase no momentâneo lapso da existência de sua empresa.
Mas e quando a empresa vem realmente a fracassar? O que aprender com essa derrocada?
Assim como em qualquer erro praticado em vida, seja vindo da queda de uma organização ou do fracasso individual, parece ser consenso que dos erros podemos retirar muitas lições. O fracasso de uma empresa não é diferente: é possível extrair das sucessões de acontecimentos internos e externos lições que podem servir de alerta para aqueles que desejam, no mínimo, dar a volta por cima.
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empreendedorismo × motivação
João Dória Jr e a minha narrativa de um diálogo de um empreendedor na Fiesp segundo a importância de empreender na Sociedade
O empreendedor, como definição
teórica, seria aquele que percebe as oportunidades de oferecer no mercado novos
produtos, serviços e processos, e tem a coragem para assumir riscos e
habilidades para inovar e aproveitar essas oportunidades, como assim ressalta
Francisco Lacombe em seu Dicionário de Negócios. Mas, para entende-lo na sua prática,
requerer-se-á uma abordagem um tanto mais sofisticada, pois, ao assumir-se como um, é
necessário compreender as motivações que levaram-no a se tornar, e que, no
âmago dessas motivações, reside a sua história: a de um ser humano capaz de ter
superado as vicissitudes na vida e emergir a partir delas um indivíduo
vitorioso, com atitudes reverenciáveis.
Ao ler e conhecer a história de
um empreendedor, suas motivações são auto explicáveis e, portanto, a sua
história pode ser ressaltada – nos comportamentos e atitudes tomadas por ele ao
longo da vida, pelo menos – como um exemplo da importância não só do termo, mas
do comportamento e da prática qual teve ao decorrer de sua jornada: a do
empreendedorismo, da livre inciativa e do valor do trabalho.
João Doria Jr, então, pode – e
deve – ser considerado como um desses exemplos. Graduado em jornalismo e publicidade,
Doria Jr é um empresário, escritor e jornalista com uma história de exemplo,
uma prova da sobrevivência do espírito humano diante dos infortúnios da vida. Hoje
presidente do Grupo Doria, apresentador do Show Business – um dos mais antigos
da televisão brasileira – além de liderar o LIDE, o Grupo de Líderes
Empresariais “com mais de 400 empresas que, juntas, representam cerca de 40% do
PIB privado nacional” como diz a matéria da Istoé Brasil, que o escolheu como
uma das 100 personalidades mais influentes de 2012. Já atuou no setor público
como presidente da Paulistur, da Embratur e do Conselho Nacional de Turismo. É
hoje, também, presidente do conselho e acionista da Casa Cor, maior evento de
arquitetura e decoração das américas.
II A história: motivação.
A história desse empreendedor é,
como ele ressalta, a de alguém que acredita nos valores da vida. Parte dela, para ser compreendida, se inicia na trajetória de seu pai, o João
Dória. Um imigrante
baiano que se mudou para o Rio de Janeiro – na
época o centro econômico do Brasil – para lutar por condições melhores de vida. Lá conseguiu um emprego no Correio da Manhã, no final da década de 40, e, com o
suor do trabalho, foi garantido com promoções atrás de promoções, o alcance do objetivo para o qual tinha saído de sua terra natal.
Certo dia, um importante publicitário de nome Cícero Leuenroth, ao ler os textos de João Dória, o pai, o convidou para conversar. Leuenroth era dono da maior agência de publicidade da época no Brasil. O Cícero convidou João pai para se tornar redator. Aceitando o convite, Dória pai começou como redator da Standard até se tornar Diretor num prazo de 6 anos. Com as conquistas, as condições de vida foram melhorando com salários consideráveis, algo que se apresentava com um certo grau de contraste diante da forma como ele, o pai, chegou no Rio: com quase nada e de ônibus.
Certo dia, um importante publicitário de nome Cícero Leuenroth, ao ler os textos de João Dória, o pai, o convidou para conversar. Leuenroth era dono da maior agência de publicidade da época no Brasil. O Cícero convidou João pai para se tornar redator. Aceitando o convite, Dória pai começou como redator da Standard até se tornar Diretor num prazo de 6 anos. Com as conquistas, as condições de vida foram melhorando com salários consideráveis, algo que se apresentava com um certo grau de contraste diante da forma como ele, o pai, chegou no Rio: com quase nada e de ônibus.
Após crescer, sentiu a
necessidade de se desvincular da Standard e criar a sua própria agência de
publicidade. Ao sair, criou a Dória Associados (hoje nome de uma das empresas
que João Dória Jr dirige em homenagem ao seu pai). Já fora da Standard, Doria
Jr relata que seu pai não tirou nenhum cliente das mãos do Cícero pela postura
ética que tinha como pessoa e consideração a seu agora amigo. Em 2 anos a
agência conseguiu crescer absurdamente e em 4 a 5 anos já era uma das 3 maiores
do Brasil.
Paralelo ao crescimento da
agência de publicidade, seu pai decidiu iniciar a vida pública – um homem de
ideias, sobretudo, pois foi de certa maneira por causa delas que construiu uma agência de
publicidade (como a publicidade sobreviveria sem a ideia?) – influenciado pelas raízes familiares da educação cristã e do seu irmão, um juiz de
direito, cuja postura era voltada para a prática da moral, para a real
consciência dos direitos e deveres. Entretanto, seu pai, o João Dória, queria disputar o
cargo eleitoral pelo seu Estado de origem, a Bahia, e não em São Paulo, onde
naquele momento residia. Desejos à parte, ele foi eleito como o segundo mais votado na época, assumindo
o mandato de 1962 a 1964.
Mandato curto, pois em 64,
quando ocorrera o golpe militar, seu pai fora cassado, e já na primeira lista.
Cassado foi porque denunciou à época a iminência do golpe militar. Tudo mudou:
a agência que tinha 10 anos de existência, perdeu; os calçados Clark cujo qual
fora sócio, deixou de ser; a residência do Morumbi qual morava, passou a
inexistir; os carros, esvaíram; “coisas que o dinheiro proporciona e que quem
chega lá deseja desfrutar, com bastante normalidade, por ter sucesso” explica
João Dória Jr. Todos os bens foram perdidos porque seu pai apenas foi congruente com
seus valores. O pai teve que se refugiar em uma das embaixadas ainda abertas,
mas como a maioria se localizava no Rio de Janeiro, foi na da Iugoslávia, em
Brasília, que buscou refúgio. Ali alocado, vivia num lugar pequeno com 8
pessoas, das quais entre ele estava Sebastião Nery, jornalista hoje na Rádio
Metrópole aqui em Salvador.
Saindo do país como um exilado,
foi para a França. A mãe de Dória Jr vendeu tudo que tinha e foi para o exílio
com ele e seu irmão, o Raul. O dinheiro que tinha durou apenas 2 anos devido a
uma custo alto de vida na França, e a liberdade era muito limitada, já que os
exilados eram monitorados pelo SNI, o sistema nacional de informação, que
tempos depois culminou na criação da ABIN, em 1990, com um propósito diferente
da dos tempos de ditadura. O objetivo do órgão era investigar para não permitir
que o exilado tivesse renda para não fazer da estrutura econômica de
prosperidade no exílio um instrumento de movimento político de libertação no
Brasil. Para sobreviver, o pai precisou
levar os quadros de artes que colecionou enquanto publicitário bem sucedido no
período anterior à ditadura. Segundo Dória Jr, seu pai costumava dizer que ele
comia os quadros para sobreviver.
Acabando o dinheiro, a sua mãe,
ele (Doria Jr) e seu irmão foram obrigados a voltar para o Brasil para
enfrentar uma vida totalmente diferente do período do qual desfrutavam anterior
ao golpe de 64: antes estudavam no Colégio Rio Branco, após a volta precisou
estudar no colégio público, a Escola Estadual Professora Marina Cintra – com
exceção do irmão, que só conseguiu porque uma senhora conseguiu pleitear uma
bolsa para o irmão –; precisando trabalhar para se sustentar, foi, ainda jovem,
assumir o cargo de Estagiário na
Standard, empresa de publicidade em que seu pai um dia dirigiu, porque um
Diretor egípcio da agência, sensibilizado pela história de Dória Jr, o cedeu
uma vaga. Em 2 meses deixou de ser estagiário e garantiu seu primeiro emprego.
“Vocês não fazem ideia... Quem já passou por
dificuldades sabe o que é precisar do emprego. Eu vivi isso: precisar do
emprego (...). Precisava para poder ajudar minha mãe, para ter um pouco de
oxigênio” expressa João diante da dificuldade em que viveu. A sua mãe fora educada
para ser mãe. Segundo João, o filho, as mulheres eram habituadas a serem donas
de casa e o máximo que faziam era um curso de letras ou de lareiras para ter
proficiência nas tarefas do lar – não foram educadas com uma orientação para
ser executivas, engenheiras etc.: “minha mãe foi jogada para poder garantir a
sobrevivência da família” revela João. A mãe trabalhava no que podia. Chorava
quase todos os dias por não conseguir proporcionar aos filhos uma condição
mínima de sobrevivência.
“A dificuldade, meus amigos, é dura. Quem tem dificuldade ou quem já passou por isso ou viveu de perto sabe o que eu estou falando. É dificuldade para comer. Não é dificuldade pra ter luxo, é dificuldade para comer. Para ter o que comer. Pois eu vivi essa experiência com minha mãe. Em casa, quase todos os dias, a gente tinha arroz e ovo. Só. Não tinha carne ou sobremesa. Não tinha luxo nenhum. Nossa! Beber Coca-Cola, comer pudim, só na casa dos amigos. E quando convidava...”
Em meio as dificuldades, João se
dava o direito de se divertir pelo menos uma vez por mês. E mesmo assim, nos
lazeres, conviveu ainda com a dificuldade. Por adorar futebol, escolheu as partidas
como um dos seus momento de lazer. Ia para o estádio caminhando porque não
tinha dinheiro; ficava na geral e chegava às vezes com 4 horas de antecedência
para ficar com um bom lugar. Só tinha um sanduíche para comer. Detalhe: um
sanduíche com mortadela e um kisuco.
Um grande contraste para quem anos antes desfrutava de muitas benesses.
O drama familiar era pior, por que
sua mãe enfrentava o preconceito da família por ter se casado com um imigrante
baiano. A família desejava que ela se casasse com um nobre, mas enquanto baiano
prosperava, muito pouco a criticar, mas depois, quando cassado, tudo a
desprezar: “nem sequer falavam com ela e
no máximo, quando a via, era um breve cumprimento. Alguns ainda falavam ‘tá vendo! Não falei pra
você!? Foi casar com esse baiano aí safado e sem vergonha’, olha aí o que
aconteceu. Foi cassado, [e você] não tá lá, tá é aqui; não tem dinheiro, tem
dois filhos pra criar. [Te] falei, preveni...” relata João com pena da
situação de sua mãe. Em meio a dificuldade, Dória Jr a prometeu que um dia
estaria trabalhando, sustentando e não a deixando chorar mais.
Ele não conseguiu. A mãe morreu
antes. Morreu com 36 anos de idade acometida por uma crise de meningite. “Eu não
tive nem a chance de dar a minha mãe aquilo que tinha estabelecido como
princípio de vida, que era poder trabalhar pra sustenta-la e não vê-la mais
chorando em casa” lamenta João que informou que nos últimos anos de vida sua
mãe só tinha uma única amiga, aquela que estendia a mão. A única. Ninguém
queria ser amiga de uma esposa de um deputado cassado.
Depois da perda da mãe, seu pai
pôde retornar em 74, vindo também em condição de dificuldade. Com 50 anos e
ainda com vontade, voltou a trabalhar. Com poucos amigos após a volta – como deputado cassado poucos também gostavam de estar ao seu lado, temendo
que o SNI também os investigasse – teve em Adolfo alguém que o apoiou,
um exemplo de amizade, de acordo com Dória Jr. Um exemplo de pessoa solidária,
diferente de muitas que se afastam e temem exatamente quando as pessoas mais
precisam de apoio e solidariedade em determinado momento.
João Dória Jr levou consigo a
história de pesar de sua mãe e fez uma nova promessa: “pai, eu vou trabalhar 24
horas e não vou te deixar sofrendo mais do que você já sofreu”. Foi o estopim.
Foi a motivação suficiente para continuar persistindo com direção e foco em
torno do objetivo que traçou. Se dedicou na Standard com 13 anos de idade; trabalhava
na hora do almoço para ter que comer um sanduíche que a empresa cedia para quem
trabalhasse neste período, pegava 2 ônibus para chegar no escritório, dois para ir para à escola
e dois para a casa. Foi da Standard para a rede Tupi como assistente de
contato e vendendo, recebendo uma comissão aqui e outra lá e conquistando
confiança em si e no projeto que foi ganhando a
educação prática necessária para sair da situação que pairava. Saiu de
assistente de contato para contato, depois supervisor, gerente comercial e
gerente de projetos. Com 21 anos foi presidente da Paulistur, sendo nomeado
pelo então Prefeito Mário Covas. Já com 21, um experiente. Depois, com 24, foi
presidente da Embratur.
Nessa trajetória contínua, preside hoje o LIDE, o Grupo de Líderes Empresariais com mais de 1.200 empresas, e um conselho diretor
renomado, operando em 8 estados, fundada em 2003 com missão de “defesa da livre iniciativa, dos princípios éticos da governança
corporativa no Brasil, tanto no setor público quanto no privado”.
As empresas de João são muito importantes na promoção de eventos e workshops que viabilizam o diálogo e a troca de informações, reforçando os valores do empresariado, da governança corporativa dentro do setor privado e público. Lá líderes discutem diretrizes. Muitos negócios são firmados dentro desse espaço. Não foi por mera coincidência que por sua sagacidade em liderar uma instituição como essa que ele assumiu a posição de uma das pessoas mais influentes do país. Existe um valor no LIDE, que é possibilitar que valores sejam reforçados e as empresas entreguem bons serviços e produtos para o usuário final de seus serviços, o cliente.
As empresas de João são muito importantes na promoção de eventos e workshops que viabilizam o diálogo e a troca de informações, reforçando os valores do empresariado, da governança corporativa dentro do setor privado e público. Lá líderes discutem diretrizes. Muitos negócios são firmados dentro desse espaço. Não foi por mera coincidência que por sua sagacidade em liderar uma instituição como essa que ele assumiu a posição de uma das pessoas mais influentes do país. Existe um valor no LIDE, que é possibilitar que valores sejam reforçados e as empresas entreguem bons serviços e produtos para o usuário final de seus serviços, o cliente.
III Posfácio: os valores
Como todo ser humano, Dória Jr
aprendeu através das suas experiências de mundo a toma-las como relevantes e
transformá-las em objeto de conhecimento e motivação. Buscou na história que vivenciou o
subsídio para a sua sobrevivência. Suas experiências vieram das pessoas, do
trabalho, da motivação através da sua história quando assim determinou para si
um objetivo.
Se motivou tendo como gatilho a
situação do pai, assim como Pelé viu o seu pai chorar em 1950 quando o Brasil
perdeu para o Uruguai na final da copa do mundo e mais tarde foi campeão em 58,
sendo considerado hoje o melhor jogador que já existiu no futebol; como assim também
foi com Roberto Marinho ao ver seu pai Irineu morrer 23 dias após o lançamento da
primeira edição do jornal O Globo, que fora publicada com 159 dias de
existência depois da chegada de Irineu da Europa, onde lá foi para se tratar de
uma doença e descobriu que fora traído por seus sócios na obscura venda do
jornal A Noite. Foi Marinho, presenciando com seus 24 anos de vida as traições –
e talvez por isso se justifique a Globo nunca ter aberto seu capital – e fatos
da época, segundo Pedro Bial na biografia de título homônimo, que ele assumiu um
jornal prematuramente e dali fez surgir anos mais tarde a terceira maior rede
midiática do mundo e a maior que já existiu no Brasil.
“O dinheiro nunca vai mover você para os seus ideais de vida. Nunca. Se tiver movendo, fuja disso. O que vai mover na vida é a sua vontade de fazer, de realizar, de fazer, de ser feliz e de fazer as pessoas serem felizes também. Isso é que vai fazer a diferença. É o prazer de realizar. O resultado material é consequência. Todo empreendedor, todos os que conheci até hoje – sejam atletas, professores, empresários, seja alguém que ama vender coco na praia – se tornou vitorioso porque acreditou na vida, na sua existência, na sua capacidade realizar e sua capacidade de transformação. Não foi o cheque, não foi o dinheiro, nem a conta bancária. Dinheiro não compra a felicidade. Conheci muitas pessoas ricas que são muito infelizes e são desrespeitosas. Xingam, machucam, humilham. Essas pessoas não sabem dar valor à vida. Enquanto já conheci pessoas que dirigem um táxi e são realizadas e ganham uma ótima renda com o trabalho. A vida é muito mais que o dinheiro.” – João Dória Jr.
Dória aprendeu durante o exercício
laboral a respeitar as pessoas, o trabalho e que nunca imagina que é possível
vencer sozinho. Lembra que é preciso ter a consciência que sempre existe alguém
do seu lado tentando te ajudar e que é necessário sempre ajudar alguém. “A
lição da solidariedade é a lição de que o trabalho coletivo é muito melhor do
que o individual” explica João. A lição da humildade também foi outro valor
aprendido e ressaltado como um item fundamental para uma auto análise mais
condizente com a realidade, aliás, o principal elemento necessário para se ter
o distanciamento necessário para realiza-la.
Como Sidney, que hoje é
formado, professor e passou por muitas dificuldades, a auto consagração de João
Dória Jr serve como um reflexo do árduo trabalho que também se reproduz nas histórias de tantos
outros empreendedores. A vida é, em seu mais profundo núcleo, a realização da
felicidade baseada nas virtudes da história de cada ser humano embutido num
contexto. A de Dória foi, ao seu modo, um exemplo que precisa ser levado para
todos que negam a importância do empreendedorismo. É a história de que a
consagração só vem com suor, de que alguém, como o seu pai, que veio da Bahia,
enfrentou os preconceitos, mas venceu; e como ele, o Dória Jr, quem viveu
dificuldades e soube nelas encontrar uma saída honesta, porque seus valores
foram no geral o alicerce da razão do seu sucesso. É como disse Dom Bertrand de Orleans e Bragança
ao citar seu pai quando chamou os filhos mais velhos no canto do jardim de uma fazenda no Paraná, que comprou por ter vendido uma casa cedida por um português rico, pois nada lhe sobrou, pois os bens da
família real foram confiscados durante a instauração da república:
“meus filhos, saibam aproveitar a única coisa que eu poderei os deixar para o futuro, porque bens materiais eu não tenho. 63 alqueires [da fazenda] divididos por 12 filhos não é nada. Com isso vocês não farão a vida. Mas eu tenho algo que vale incomparavelmente mais que os bens materiais, e isso eu posso lhes deixar, que é em primeiro lugar a fé católica, em segundo lugar uma boa educação e em terceiro lugar a consciência de uma missão histórica a ser realizada pelo bem desse grande país, desse grande Brasil. Preparem-se por que um dia o Brasil os chamará”.
Assim como para Dom Bertrand,
como o João Dória Jr, o Pelé, Sena, Sidney e outros, o pilar da vida, do sucesso,
se estabelece da mesma maneira que o discurso do pai de Dom Bertrand: um bom sistema de valores, uma boa educação e
uma missão motivadora auto imposta. É o que há em comum em todos os vencedores, variando apenas o conteúdo, mas não a forma. Acima de tudo, em grande maioria são orgulhosos, mas nunca arrogantes:
“As pessoas arrogantes nunca acham que estão erradas. Essas não são pessoas felizes e nem serão pessoas bem sucedidas, pois, quando menos esperarem, irão fracassar ou irá faltar a mão a amiga. Por que elas foram tão autoritárias, tão duras, tão arrogantes, incisivas e mal criadas que, no momento que teve aquela mão querendo-a ajudar, irá faltar, quando a ajuda um dia precisar. A humildade é o compartilhamento, é o reconhecimento [dos erros e limitações] e o ato de pedir desculpas [sem se degradar]”.
A tolerância é outro valor
considerado preponderante no seu sucesso não só como profissional, mas como
indivíduo. Ressalta ele, João Dória Jr, que se alguém não for tolerante, vai
sofrer muito, pois a compreensão do contraditório é parte da vida em sociedade.
Não só ter tolerância, mas também a prudência é um elemento primordial: saber o
tempo certo para agir, ser comedido, cauteloso. Não tomar atitudes bruscas,
rápidas, imediatas, enérgicas e emotivas, sob o risco de se arrepender depois.
O valor do trabalho construiu a
carreira de João Dória Jr e tem nesse valor o fundamento de sua existência: o
sucesso profissional de um indivíduo como resultado de uma contribuição coletiva
reconhecida a todo momento por ele e que aqueles a quem confiou – e aqueles a
quem ele foi confiado – também cresceram. A história do indivíduo que prova que
o pronome nós existe até no eu, pois
reside ao lado dele a história de outros indivíduos que diretamente influenciaram
em sua trajetória. Esse valor do trabalho que o construiu não é particular
dele, mas de muitos. A sociedade é então o resultado do trabalho árduo
alicerçado em uma ideia e um conhecimento organizado por indivíduos motivados em seus objetivos.
O valor do trabalho é incentivado
a todo o momento para os filhos que ainda menores iniciam em ritmo menor, mas os
fazem trabalhar para deixar claro que eles, mesmo na situação que estão não são
herdeiros mas sucessores do trabalho do pai: “é ter a sustentação da vida nos
mesmos valores que aprendi com dificuldade. Que não passe pelas dificuldades,
mas que tenha a consciência desses valores. Tomar noção da realidade da
conquista, pois é isso o que faz a diferença entre as pessoas”.
IV Epílogo
As empresas de João Dória Jr,
caso não foi percebido, são o reflexo de seus valores. Uma empresa é o reflexo
da mente que a criou em sua mais íntima esfera. Se os valores são bons, a
empresa sobrevive, caso não, padece. É por isso que o lucro de uma empresa, o dinheiro
derivado da venda de um serviço ou produto deduzido de seus custos, é o que legitima a sua existência, porque permite a sua perpetuação no mercado, mas nunca é a sua finalidade última e maior. A sua finalidade é – uma que Drucker já ensinou há muito tempo no passado – criar e servir bem a um
cliente.
Mas teimam os contrários à livre iniciativa que a história de João como a de tantos outros empreendedores não podem servir de exemplo pois são esparsas, exceções. Jamais serão. Elas são o retrato da sociedade. Elas são a prova de que o triunfo da vida individual vem conjugando o “nós”, de que a ética, acima de tudo, é um valor que coloca a sociedade civilizada em um patamar superior, de que a felicidade é um tipo realização individual em coletividade.
Mas teimam os contrários à livre iniciativa que a história de João como a de tantos outros empreendedores não podem servir de exemplo pois são esparsas, exceções. Jamais serão. Elas são o retrato da sociedade. Elas são a prova de que o triunfo da vida individual vem conjugando o “nós”, de que a ética, acima de tudo, é um valor que coloca a sociedade civilizada em um patamar superior, de que a felicidade é um tipo realização individual em coletividade.
O empreendimento, portanto,
está apoiado numa história que reside nos valores concebido pelas pessoas,
aliadas a sua educação e motivação - que nesta reside a história de vida. Se a sociedade está do jeito ruim que está
é porque há pouca, ou falta, tolerância e prudência, bem como falta a promoção do valor do
trabalho, da livre inciativa, como um dos fundamentos da liberdade, do
progresso.
A sociedade é uma construção de realizações individuais na coletividade e não da centralização do poder coletivo na individualidade formal-burocrática de um órgão público, atribuindo a este a responsabilidade por comandar a vida alheia.
Que indivíduos como João Dória Jr, Sidney, Roberto Marinho e outros existam, por que é do triunfo deles que a sociedade progride, do triunfo dos empreendedores nos seus diversos campos. Alguns conhecidos, outros não, muitos sua existência é conhecida, mas sua história obscura, todavia, não há nada que caiba tão bem e que expresse o quanto a prosperidade do mundo é o resultado da união dos valores de indivíduos bem educados e com uma motivação poderosa quanto a afirmação de George Eliot em Middlemarch:
A sociedade é uma construção de realizações individuais na coletividade e não da centralização do poder coletivo na individualidade formal-burocrática de um órgão público, atribuindo a este a responsabilidade por comandar a vida alheia.
Que indivíduos como João Dória Jr, Sidney, Roberto Marinho e outros existam, por que é do triunfo deles que a sociedade progride, do triunfo dos empreendedores nos seus diversos campos. Alguns conhecidos, outros não, muitos sua existência é conhecida, mas sua história obscura, todavia, não há nada que caiba tão bem e que expresse o quanto a prosperidade do mundo é o resultado da união dos valores de indivíduos bem educados e com uma motivação poderosa quanto a afirmação de George Eliot em Middlemarch:
"(...) o crescente bem do mundo depende parcialmente de atos não históricos; e se as coisas não são tão ruins para você e para mim quanto poderiam ter sido, deve-se em parte aos tantos que viveram fielmente uma vida oculta e hoje descansam em túmulos não visitados."Fortunat Favet Fortibus.
motivação
postado originalmente na fanpage Tutus Administratus.
A motivação é um processo responsável pela intensidade, direção e persistência dos esforços em direção a um objetivo ou alcance de determinados objetivos, segundo Stephen Robbins. Na vida, cada um encontra seu momento chave para conseguir sucesso com suas metas. Certas experiências são capazes de dar respaldo suficiente para a mover-se com persistência, direção e intensidade em direção ao objetivo.
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| 13/06/1961: Santos 5-4 Racing de Paris. Foto STAFF/AFP/Getty Images, do livro PELÉ-MINHA VIDA EM IMAGENS (divulgação/Cosac Naify) |
A motivação requer a existência de três processos, podendo ser compreendida da seguinte forma: (1) qual é a intensidade que está a ser aplicada em torno do objetivo? O esforço é suficiente? Porém, não basta apenas esforço, é fundamental dar uma direção a ele, portanto, a pergunta que vem é se (2) está direcionando corretamente o esforço na busca do objetivo. Com a intensidade e a direção, muito provavelmente pode-se obter o que deseja logo na primeira tentativa, mas e se não conseguir? Ou melhor, quem direcionou o esforço desistiu na primeira tentativa ou (3) persistiu duas, três ou quantas vezes fosse necessário para atingir o objetivo?
Motivação vai muito além do que vídeos e discursos coesos. É a força que move o mundo. O conceito técnico explica que sem os três processos, o objetivo pretendido nunca será alcançado, porque, em algum momento, a falta de apenas um acarreta no prejuízo de não almejar o objetivo pretendido.
Todavia, existe algo que precede aos três processos técnicos pertinentes à motivação que, sem ele, seria impossível proceder para o objetivo: o desejo incansável e inabalável de querer, ou melhor, o motivo íntimo que permite alguém querer algo - nada mais é do que o outro lado da moeda da motivação, é a motivação emocional. Se de um lado existe uma orientação motivacional capaz de oferecer o subsídio teórico, existe do outro, uma razão particular e íntima para fazer com que a intensidade, direção e persistência nunca se esgotem diante do infortúnio. Alguns chamam de fé, outros cham de vontade, querer. Vários nomes existem, mas basta apenas compreender que a técnica não basta por si só, é preciso caminhar junto com o bom uso de uma esfera ainda desconsiderada, a emoção ou, como dizem os poetas, o coração.
Referências:
- ROBBINS, S. P. Comportamento Organizacional. 9. ed. São Paulo: Prentice Hall, 2002
motivação
Na brisa que passa por seu
rosto reside o olhar responsável por dar vida ao estado mental que inunda a sua
mente. Um olhar profundo, firme. Focado. Parte de quem o observa entende que,
por ter um olhar compenetrado, há uma profundidade inerente ao comportamento
representado na linguagem dos olhos. Não. É mais do que isso, é a representação
corporal única que identifica o quanto alguém é capaz de inconscientemente
representar no mundo observável o que se passa dentro das suas faculdades
emocionais.
Em meio ao monótono som do
motor – um ronco alto, potente, hipnótico –, do trepidar dos pneus na pista,
correndo a um velocidade altíssima, deslizando, com a habilidade que lhe fora
adquirida, nas curvas de Monte Carlo, em 1988, mês de maio do dia 14, encontrava-se
ele, o piloto, num transe hipnótico, um estado onde ele percebeu que não estava
mais dirigindo conscientemente, estava ele, para si próprio, numa dimensão
diferente do plano real – o circuito era como um túnel que ele ia indo, indo, indo
até perceber que o carro era a extensão do seu corpo, que já não ouvia mais o
som do motor como um ruído emitido da máquina, mas sim como do próprio corpo. Não
era mais um ruído real, mas como um som de fundo, uma trilha sonora que narrava
o percurso que ele não mais consciente estava de que era algo além da sua mente
a responsável por leva-lo à linha de chegada. Em meio ao transe, na confusão
inaudível das vozes abafadas pelo ronco do motor residia aquele olhar, a única
amostra capaz de dar vida ao seu intento.
Como é possível que algo tão
impronunciável seja capaz de ser entendido mais que tantas palavras? Parece que
se imagens valem mais que mil palavras, um olhar equivale a algo incontável,
como se palavras, na tentativa de descrevê-lo – o olhar – fossem incapazes,
talvez, de expor o que por trás do olhar reside: a mente determinada a atingir o
objetivo, o olhar certeiro que faz de tudo ao seu redor ser uma peça figurante,
um plano de fundo onde o único foco é, enfim, o sonho.
O que, por trás do olhar, foi capaz
de provocar tal reação – a de ser determinado? Disse José Carlos de Azeredo uma
vez que o ser humano é capaz exercer a condição de transformar experiências de
mundo em objetos de conhecimento. O olhar, portanto, é a janela para a
experiência de mundo; a fresta na parede do inconsciente que dá luz na
escuridão dos pensamentos, a ponte para entender que não basta o objeto de
conhecimento, como também a experiência que o originou. Pois da fina ponta do
presente às reações, de quem o olhar possui, se desencadeiam de um passado –
uma história de vida –, influenciada pelo ambiente que o circunda, inserido em
seu contexto sociocultural. Não termina aí, pois o Homem não é escravo dos circunstâncias,
mas sim de suas escolhas, ou melhor, da liberdade de exercê-las, todavia, certo
de que, no lugar que se encontra, onde no contexto há variáveis que implicam em
sua esfera íntima, o Homem do olhar determinado considera a escolha frente as
suas limitações.
Ao olhar um catador de lixo, um
pai de família que passou 15 anos sem estudar assustou-se com o pensamento de
que um dia, caso não agisse, poderia se tornar aquele catador, em sua imagem e
semelhança: um derrotado, um renegado, depressivo, inerte, privado de
oportunidade – não importando se por si ou por quem for. Diante da visão que o
chocou, o pai voltou a estudar, mas voltou determinando. Seu olhar nunca foi mais
o mesmo, seu olhar mudou. Hoje é um bom engenheiro, professor e contribui
regularmente para que as pessoas não se tornem pobres de espírito.
Em 1950, George Reader foi a
primeira pessoa a ser ouvida em 16 de julho; quando 199.854 pessoas ouviram do
apito de George no Maracanã a sinalização de que Ghiggia, jogador do Uruguai,
havia feito o gol da virada do Uruguai sobre o Brasil na copa do mundo. No
rádio, o pai chorava. Ele lembrou do seu pai chorando, aos prantos pela
derrota; ficou preocupado porque lhe fora ensinado que homem não chora, que
homem é forte. Viu no pai a reprodução da derrota estampada na cara dos
jogadores – coitado do Barbosa, um dos melhores na época só é lembrando pelo
gol da virada que tomou, um peso que carregou até o fim de sua vida quase
cinquenta anos depois. Só restava ao filho, vendo o pai desastrado prometer
algo: que ele iria ganhar uma copa do mundo pra ele. Em 50, aos 9 de idade,
quem disse foi Edson Arantes do Nascimento, em 58, aos 17, foi Pelé, o campeão
do mundo. Seu olhar nunca foi mais o mesmo, seu olhar mudou. Depois daquele dia,
em 50, emergiu das lágrimas do pai a determinação do filho que mais tarde se
consagraria como o maior de todos os tempos.
Pode ser durante a pilotagem de
um carro ou escrevendo um livro, pulando de paraquedas ou lecionando, jogando
videogame ou futebol, tocando um violão ou cantando uma música, pode ser em
qualquer atividade, todos assumem em algum momento um meio para revelar o olhar
introspectivo da determinação; todos, em algum suspiro da vida, irão descobrir,
por mais momentâneo que ainda possa ser, a magia da determinação. Ela está em
todos os lugares, é uma energia manifestada pelas conquistas de cada indivíduo.
É o olhar do Ayrton, do Michael Jordan, do Pelé, do Michael Johnson, da Marilyn
Monroe, da Ayn Rand, da Maya Gabeira. É o olhar de todos que munidos de suas
experiências de vida, transformam em energia para triunfar e não se ajoelhar às
vicissitudes da vida.
Cada um munido de suas
limitações, experiências de vida, constitui um ser bio-psico-social, como já
teorizou um russo de nome Lev Vygotsky. Reside no âmago emocional de cada
pessoa – mulher ou homem, criança ou adulto, jovem ou idoso – as motivações
para se tornarem quem desejam ser. Cedo ou não, nunca é tarde para ser o que
poderia ter sido. Mais certo é que está lá, o olhar determinando [a algo] que é
o objeto de conhecimento e esconde as experiências de vida que motivaram cada
um e reside no olhar de quem cobra uma falta em direção ao gol; de quem dirige
um carro embaixo de chuva, e com câmbio quebrado, em seu país natal, em busca
de uma vitória; de quem ensina engenharia para uma turma desinteressada; de
quem educa o filho; de quem pratica o bem ou o mal; de quem discursa para 2 ou
2.000 e até de quem carrega a arma e vai à guerra.
Alguns podem clamar um mistério
no olhar de quem é determinado, mas tal clamor não passa quiçá de uma
especulação incompreensiva da incapacidade de entender que por trás dos olhos
esconde a força que move o mundo: a motivação humana.
motivação
| Crédito: globoesporte.com |
O preço que se paga pela
ausência de algo é maior do que a virtude de apreciar a sua presença. Imagine
quando se percebe a ausência de vida, em vida, e o preço que se paga pelo tempo
que não volta, o tempo jogado fora. E como o tempo não pode voltar, parece
lógico a expressão “correr atrás do
tempo”. Mas não é. O tempo que se perde não se recupera e o que se corre
pra recuperar, se antes corresse quando não o havia perdido, no momento que reconhecesse
a necessidade de correr, já se estaria muito mais distante. Melhor do que correr atrás do tempo é correr ao lado do tempo. O tempo é indiferente.
Não há nada tão justo quanto o tempo. O tempo chega a todos e ninguém muda o
tempo. Ele é o que é e nada há o que se fazer ou falar sobre isso, apenas aceitar
que ele não se controla, vivendo em função de administrá-lo e não modifica-lo.
- Você precisa fazer algo! Sua
situação é preocupante.
Disse o Dr. Joaquim (que
descanse em paz) naquele dia. Já naquele tempo eu não aguentava dentro de mim o
erro da alimentação. Não fazia sentido estar daquele jeito. Aonde estava era
resultado de minhas escolhas. Depois de um receituário previsto, sabia que algo
precisava ser feito. Mas antes era necessário ter consciência da origem do
problema que enfrentava. O Dr. Joaquim expressou a indignação com as
consequências, tratou os sintomas, mas só eu seria capaz de saber as causas. Eu
me habito, afinal de contas.
Da superação do desleixo e da
preguiça, eu fui correr – e na corrida encontrei a resposta. Com o suor no
rosto, completei míseros um quilômetro. Foi de dar vergonha. Voltei andando o
quilometro que corri, mas a determinação era grande e no outro dia eu corri um quilômetro
e 100 metros, no outro dia mais 200, depois 300, até que hoje cheguei a 10 km.
Dia após dia, continuei correndo, continuei progredindo. Já estava correndo
dois quilômetros em menos de 3 meses.
O tempo não era nem importante, era necessário correr apenas. Eu tinha que correr! Eu ia encontrar o ritmo em algum momento. Só importava dar o passo e depois continuar com a passada. Até que passada após passada eu fui encontrando o ritmo – cada vez que mais próximo do ritmo chegava, mais capaz de ser veloz eu estava e mais veloz eu corria. E fui correndo. Do lado de cá a alimentação ótima, do outro os passos iam se acertando. Na medida que iam acertando os passos, a vida ia se acertando na velocidade da corrida.
O tempo não era nem importante, era necessário correr apenas. Eu tinha que correr! Eu ia encontrar o ritmo em algum momento. Só importava dar o passo e depois continuar com a passada. Até que passada após passada eu fui encontrando o ritmo – cada vez que mais próximo do ritmo chegava, mais capaz de ser veloz eu estava e mais veloz eu corria. E fui correndo. Do lado de cá a alimentação ótima, do outro os passos iam se acertando. Na medida que iam acertando os passos, a vida ia se acertando na velocidade da corrida.
Dia e noite, noite e dia,
passava eu pelo mesmo percurso. Quando noite, o espetáculo monótono das luzes
dos postes refletiam sobre o meu rosto e a listra da pista pintada de branco me
hipnotizava com sua teimosia repetitiva; quando dia o vento e o sol no rosto davam
a consciência de que corria em direção a luz.
Os passos, um após o outro, me
faziam apenas perder a consciência de tudo ao redor, só a corrida importava. A
corrida pela corrida. Um prazer em si mesmo. A morada do meu interior se
encontrava nos 150 batimentos cardíacos por minuto e a respiração ofegante que
seguia só me deixava mais centrado – olhava pra onde queria chegar e sabia que
em certos momentos não haveria uma outra alternativa para chegar onde desejava
que não fosse só coração e pulmão.
Depois de calejado com a
teimosa repetitividade da corrida, o corpo obedecia a mente, a minha motivação
me movia até o fim da linha. O cansaço que chegava dava a certeza que para
continuar era necessário coração, garra.
Às vezes você só tem o seu pulmão e seu coração pra seguir em frente, e mais
nada.
Aprendi a me ver correndo. Aquilo
me dava uma sensação de introspecção. Sentir meu pulmão funcionando, a estrada
meticulosamente se repetindo, o olhar focado, a motivação, a finalidade por
estar correndo me fizeram tornar a corrida um ritual muito além da própria
corrida.
Quando eu termino uma corrida
eu me sinto diferente, eu sinto como se eu tivesse me vencido em algum aspecto.
Não corri contra ninguém. Apenas corri. E correndo fui vencendo as barreiras,
passo a passo.
Aprendi que atingir a linha de
chegada não se dá apenas com um passo, mas com vários, no ritmo correto – que se
acha no caminho. Mas tenho a certeza que basta um passo frente para estar um
passo a menos da linha de chegada.
E toda vez que eu me pego em
uma frustração, toda vez que encaro uma possível encruzilhada, eu corro. Não
corro da situação, da frustração. Eu corro pra saber que a jornada é uma
corrida, de vários passos. Que eu preciso continuar passada após passada e que
não posso deixar meu pulmão falhar, meu coração falhar, eu mantenho minha força
na mente, nos meus sonhos.
Corro no ritmo dos passos e na
paciência da passada vou me achando no meio da jornada. O trajeto ensina. Sou
eu quem corro.
Mas quando eu sempre fecho os
olhos na corrida eu vejo meu pai do meu lado: vai, filho! Vai cara! Você
consegue! Não para! Força! Mantém o ritmo!
Eu fecho os olhos de novo e
vejo minha mãe: você vai conseguir! A vejo estender a mão e falar: toma essa água, filho. É a água na
garrafa que estou bebendo e que ela fez questão de encher pra mim com todo o
amor antes de correr.
A vida é uma corrida feita de
passos. Quem anda não consegue chegar a tempo, quem corre demais cansa e para
no meio. Encontre o seu ritmo, sue bastante e saiba que existem pessoas que
estão do seu lado. Mas também saiba que a perna é sua, ninguém corre por você.
Mas eu não me permito parar de
correr, não paro de jeito nenhum. Se for chorar, choro correndo. Eu aprendi a
amar o trajeto e não a linha de chegada. E correndo eu vou, passo a passo,
consciente de que a vida é uma corrida e chega quem não para e não quem é mais
rápido. Vence quem, portando seu coração e seu pulmão, corta o vento com os
braços e quebra a parede de ar com as próprias pernas.
Assim como na corrida, tudo em
vida passa por um processo semelhante. Parece haver um consenso de que só o resultado
pelo esforço compensa nessa vida.
Contos × motivação
– A sua vida é ser cobrador. Você não nasceu
para estudar, você vive para ser peão e aceite esse fato!
Sidney é uma pessoa
comum; ele cresceu, teve seus sonhos e seus percalços durante o curso da sua
história. Por alguma razão, sabe-se lá o quê, ele se tornou cobrador de uma
rede intermunicipal onde operava entre as cidades de Salvador e Camaçari. Vivia
uma rotina obscura, em um emprego que, segundo ele, apenas serviria para não
passar fome, a qual tanto temia.
Pois bem. Em uma dessas
epifanias, talvez por causa do contato diário com as simplistas operações aritméticas que
lhe eram delegadas, Sidney decidiu fazer vestibular. Logo para que? Sim, p’ra
Matemática. Apostou com o deboche de que lhe era característico diante de uma
decisão dessas nessa fase da vida, pois viria a tentar a sorte ao assinalar no
bendito dia da prova qualquer resposta a qual lhe parecia ser a certa. Algo digno
de prêmio no Congresso Internacional de Achismo Científico.
O homem que não sabia
uma equação de primeiro grau, passou. Por alguma razão, seja qual for atribuída
ao feito, Sidney sabia que inteligência não seria uma delas. Ele mesmo não
compreendia o feito, duvidando, com razão, o como era possível ser aprovado mal sabendo as simples operações
matemáticas. Mas, encarando a escolha, assumiu a coragem de seguir em frente.
Do calar da manhã ao se
pôr da tarde o Rapaz não descansava. Se empolgava com cada equação que
resolvia. Bem sabia da alegria que com tanto esforço das noites de sono perdidas por conseguir finalmente resolver uma equação de primeiro grau. Mas não parou por
aí. A cada novo problema, surgia um próximo. Cada dificuldade, ele aceitava o
desafio e buscava resolver as questões. O Rapaz se envolvia com tudo aquilo e
não parava de pensar nas possíveis soluções de cada desafiante questão nem
quando dava o troco durante as viagens intermunicipais: a propósito, troco esse
que nem era mais motivo de demora. Ele sentia a introspecção e a sensação de
dever realizado a cada letra de cada exercício, o Rapaz caçava questões nos
livros para procurar o próximo desafio em que pudesse ficar horas, dias ou
talvez semanas e quiçá meses para responder com o suor da dedicação.
Foi a duras custas que
ele estava aprendendo. Sidney perdeu em muitas matérias, acabou saindo de
algumas porque sabia que não daria pra continuar por conta da dificuldade e
então focava no que estava conseguindo e ignorava as perdas, não se abalava.
Até que um dia recebeu sua escala de horários onde o colocou para trabalhar no
exato horário em que tinha aula. O que aconteceu? O Rapaz ouviu o que se lê na
primeira frase do texto. Mas o que ele respondeu?
– O que? Me demita! Eu vou te mostrar do que
posso!
Loucura? Talvez. Mas a
fome que Sidney temia passou a existir por duros 15 dias de desempregado. Como
Ulysses punido por Posseidon por duvidar dos Deuses, Sidney sofria o mesmo por
ter autoconfiança. Estava pagando o preço da escolha de
finalmente não aceitar ser medíocre. E foi premiado: recebeu três propostas
para estágio como professor de matemática em três escolas diferentes ganhando
mais do que quando era cobrador e ainda trabalhando menos.
Sidney se auto
consagrou diante de uma ilusão social opressora. Quem teve o preconceito e a
prepotência não foi capaz de usurpar seus sonhos; ele ressurgiu enfrentando no
olho da tormenta os salafrários que queriam ponderar sobre o que era certo na
sua vida e ele foi além: construiu um muro impeditivo para transferências de
limitações alheias. Nem mesmo precisou ler Winston [Churchill] para entender
que a qualidade que o elevou a vitória suplantou todo o resto de suas
conquistas. A empresa intermunicipal que trabalhava faliu, mas Sidney não;
Sidney não é milionário, mas é rico. Entendeu o significado da palavra decisão; Sidney se autoconsagrou ao posto de professor quando antes era um
abnegado sujeito à gerência do chicote. Sidney hoje é professor da sua antes maior deficiência. E Sidney
venceu.


